DISCURSO DE POSSE
INVOCANDO a proteção de Deus e a favorável acolhida dos homens de boa vontade, assumo o cargo e os encargos de Reitor da Universidade Estadual do Maranhão, revestindo o espÃrito com os indumentos da humildade e da coragem, virtudes que, nos jardins de minha devoção mais Ãntima, passeiam de mãos dadas, como irmãs inseparáveis.
Pela livre manifestação de meus pares, sou investido Sumo Sacerdote do Templo sagrado em que a Verdade é a deusa suprema, e a Liberdade a toalha branca de seu altar, no qual se oficia o culto incessante do Saber, a que todos aspiramos em grau máximo, em cumprimento ao mandado divino de completarmos a obra da Criação.
A administração de até ontem abre espaço hoje a novas perspectivas, amplia-se com outros pontos de vista. Para uma instituição que tem por dever a criatividade permanente, eis o momento de consolidar idéias, rever práticas, insuflar-se de ares que lhe renovem a atmosfera.
Não sei de honra maior, nem maior responsabilidade caiu jamais sobre meus ombros. Sou filho desta Casa. Sou professor desta Casa. Aqui fiz opção preferencial pela docência. Aqui professei fé inabalável na Ciência e na Cultura como instrumentos de promoção do homem a patamares de vida plena e plenamente humana.
Compreendam, pois, minhas senhoras e meus senhores, a alegria que habita e avassala o meu ser nesta culminância de minha humana caminhada.
Serei humilde, porém, o bastante, para reconhecer-me devedor a uma legião de servidores da Causa Comum, dos quais, vassalo em prontidão, eu me reconheço atalaia elevado à torre mais alta.
Ao Senhor Governador do Estado, Dr. José Reinaldo Carneiro Tavares, desde a Vice-Reitoria, a que fui guindado por sua livre decisão, tenho prometido, se não a infalibilidade do êxito, sempre, todavia, minha lealdade inquestionável. Espero, em contrapartida, contar com a luz de sua experiência, que lhe permita assegurar-me o necessário apoio, para que eu possa bem desincumbir-me da missão hoje assumida. Sei de sua visão de universidade. Guardo com zelo suas palavras por ocasião do XXII Fórum de Reitores das Universidades Estaduais e Municipais do Brasil, realizado nesta cidade a 21 de agosto de 2002. Naquele então, afirmava Sua Excelência, “como governador, como homem público, como engenheiro que um dia foi estudante universitárioâ€, render homenagem “ao poder do conhecimentoâ€: “É este o poder que vem primeiro e o que mais duraâ€.
“Até pouco tempo – foram ainda suas palavras – lutava-se com as mãos para ganhar o pão, a terra, a liberdade. Luta-se agora com a mente, para garantir maior domÃnio da ciência. É nesse campo que se decide hoje quem haverá, amanhã, de ter pão, terra e liberdade†[...].
E eu continuo citando o Senhor Governador: “O Maranhão tem carências que se acumulam, represadas e inatendidas, desde os tempos coloniais, especialmente quando nos referimos à chamada dÃvida social, do Estado, do poder público, para com as necessidades básicas do indivÃduo.
“Mas o Maranhão se apressa em pagar esta dÃvida, e para isso, recorre à Universidade como a um banco de valor incomum, de valores inapreciáveis. Um Estado forte é o Estado de Universidade forte. E o Maranhão quer ser forte.
“A Universidade é a primeira alavanca do desenvolvimento, se, de fato, falamos em desenvolvimento em sentido integral, humanÃstico, capaz de incluir o ser humano todo e todos os seres humanos; se queremos, aqui, em nosso próprio território, preparar a elite que, logo mais, assuma as altas responsabilidades de governar, crescer, produzir, competir, liderar.â€
De uma Universidade assim concebida, sagrei-me cavaleiro, com todo o afinco que levou o Quixote a armar-se e atirar-se aos pés de Dulcinéia do Toboso. A essa outra nobre Dama recitarei o Soneto da Fidelidade, jurando-lhe não o amor do Poeta, “eterno enquanto dureâ€, mas amor feito de veneração transcendente, imorredouro.
Ao grande companheiro Waldir Maranhão Cardoso, com quem tive o prazer de dirigir a Universidade e a quem agora sucedo, palavras de sincera e fraternal solidariedade, que ele bem sabe brotar dos refolhos de minh’alma, com votos de felicidade na fronteira de ação que ora ele procura, em seguimento a seu chamado de educador, ousado e generoso, destemido e altruÃsta, atencioso e engajado na mais sensÃvel percepção do dever de justiça social. Como Reitor, Waldir Maranhão estendeu a Uema até os mais distantes rincões desta terra, fazendo-a quase coincidir com todas as dobras do mapa do Maranhão. Ele não esperou que a Universidade crescesse. Deu-se à pressa e não encontrou terrenos arroteados para sonhar com a árvore carregada de frutos. O Estado do Maranhão fica devendo a Waldir Maranhão a Nona Bem-Aventurança, por ele assim proclamada em seu discurso de posse: “Bem-Aventurados os que completam sobre a Terra a Obra de Deus, porque constroem para a Eternidade.â€
Waldir, estejamos certos, construiu para a Eternidade. O lema que escolhemos a significar em sÃntese nosso Programa de Gestão Compartilhada para a Uema já o diz: “Mais Educação, com mais Qualidadeâ€. Waldir, fazendo fé no princÃpio da Dialética segundo o qual a qualidade é filha da quantidade, conferiu máxima ênfase ao primeiro pólo de nosso binômio administrativo. Sua urgência em fazer as coisas se fazerem obedeceu ao ritmo das necessidades represadas, e o rio da Universidade, que escorria em curso calmo, foi por ele levado ao transbordamento da enchente. Sabemos todos, eu sei, Waldir Maranhão é o primeiro a saber, que passamos à hora de conterem-se as águas, para evitarmos a avalanche e seguirmos firmes no leme e na viagem.
Por isso, no inÃcio, eu me declarei revestido, também, da indumentária da coragem. Fui companheiro e co-responsável de Waldir Maranhão, para garantir-lhe a segunda etapa de um governo universitário que será de uma só natureza em duas pessoas. Coragem, eu disse. Coragem de quem planeja, prevendo, medindo conseqüências, confrontando meios e fins, calculando custos e riscos, sem medo, mas sem imediatismos, sobretudo sem condescendências alheias à polÃtica da própria Universidade. Fizemos mais educação. É chegada a hora de fazermos mais qualidade.
Coragem, pois. Mas coragem-humildade, de quem sabe conjugar este verbo, tão poucamente e tão muitamente cristão, que é dividir. Coragem que se traduz por liderar inteligências, coordenar vontades, somar forças criativas. Coragem que se detém a ouvir, a compartilhar, a praticar a arte de convencer e de convencer-se, de quem é prudente sem ser temeroso, de quem é sábio sem meter-se a vaidoso, de quem é forte sem fazer-se arrogante, de quem é justo sem chamar a atenção. Que Deus me dê a graça dessas virtudes, e os meus colaboradores não me neguem o penhor de sua compreensão. Assim seja.
Minhas Senhoras, Meus Senhores:
Não preciso reiterar o que eu entendo de universidade. Meu pensamento está expresso no Programa de Gestão que balizou este reitorado, e que, a meio caminho de sua implementação, constituiu a plataforma sobre que Waldir Maranhão, este novo Reitor e outros companheiros comparecemos a ganhar a confiança da Comunidade Acadêmica para governar a Casa de todos. Só para avalizar-lhe vigência e continuidade repasso, de suas linhas-mestras, aqueles pontos que mereçam maior atenção ou de que ainda estejamos a dever pleno cumprimento.
Para começar, cobremo-nos, em vigilante reciprocidade, e repetidamente, a missão da Uema:
servir ao Povo e ao Governo do Maranhão
como a sua Agência Estadual
de Qualificação de Recursos Humanos.
“Para cumpri-la [...] como decisão da melhor polÃtica e como imperativo ético – lembra o documento a que me reporto – impõe-se seja dada prioridade à s áreas e/ou setores que mais rápida e eficazmente respondam à s possibilidades de um desenvolvimento humano justo e equilibrado (e não apenas a demandas episódicas de crescimento quantitativo-material de viés econômico).
A Administração que ora muda de comando reafirma: “[A] Universidade haverá de ter sempre presente que o ser humano é a sua razão constitutiva, seu princÃpio explicativo, movente primeiro e último de suas ações e intenções.
“E para que esse humanismo integral não permaneça no plano das proclamações metafÃsicas, será preciso levá-lo à esfera das decisões, em todos os momentos da vida acadêmica, ficando explÃcito que a Universidade não só se posiciona como baluarte da plena cidadania, mas reunirá todas as suas energias criativas para ajudar a construir uma sociedade em que ninguém seja excluÃdo da mesa comum da humanidade, aà incluÃdo o direito universal ao pão e à palavra, à casa e ao conforto, à saúde e à sanidade, à terra e aos seus produtos, à instrução e à informação, à ciência e à arte – em sÃntese, à Felicidadeâ€. É o Primado do Humano como princÃpio orientador das ações acadêmicas, conforme o Programa de Gestão citado.
Os novos tempos, por outro lado, obrigam ao Redirecionamento Epistemológico do Saber: “De forma alguma, pode a instituição universitária permanecer alheia à Nova Ciência – sobretudo, à Nova Pedagogia daà decorrente – devendo, antes, dispor-se ao reexame, desde os fundamentos, de seu estatuto epistemológico, de suas metodologias de ensino e aprendizagem, e, com especial atenção, de sua polÃtica de utilização societária das ciênciasâ€.
Por isso, é urgente – e para que a colaboração com o poder público seja efetiva e produtiva – darmos real Prioridade à Pós-Graduação e à Pesquisa, convencidos, como devemos estar, que “na Universidade, valem mais os cérebros mais bem qualificados, e a melhor universidade é a universidade dos melhoresâ€.
Professo, neste ponto, minha fé de que o desenvolvimento cientÃfico e tecnológico do Estado obriga ao surgimento e à expansão de nosso quadro de pesquisadores. A eles e aos professores mais experientes compete pensar, articular e desenvolver ações que visem à melhoria do ensino de graduação e à criação de um verdadeiro ambiente acadêmico. Investir em ciência, tecnologia e inovação é um ato de antevisão e antecipação do futuro, com retorno evidente em melhor qualificação técnico-profissional, em empregos de melhor remuneração, em geração de divisas, em melhor qualidade de vida.
Será nesta perspectiva que se levará a efeito de maior eficácia a Otimização Custo-BenefÃcio, outra diretriz do Programa deste Reitorado em transição, cujo texto eu faço questão de incorporar como agenda minha nesta cerimônia inaugural: “Não seria possÃvel esperar-se outro comportamento do gestor da Coisa Pública, numa circunscrição acadêmica em cujo meio enormes carências, da mais diversa ordem, impõem, como exigência prioritariamente ética, a parcimônia com os dispêndios e o cuidadoso monitoramento dos recursos postos à sua disposiçãoâ€.
“Será esta, entre outras, uma providência que muito valerá para conferir, à Instituição, a credibilidade e aceitação perante o Governo, de que faz parte, e perante a Sociedade, a que deve servir com plena consciência e reta vontadeâ€.
Por dever de justiça e justo reconhecimento, faço agora a louva-ção de quantos me precederam a exercer, na Universidade Estadual do Maranhão, a “mais alta magistratura dos espÃritosâ€. A Universidade de hoje edifica-se com o trabalho dos que a construÃram ontem, assim como a Universidade do futuro será, em boa parte, o que fizermos dela nos dias correntes. Os mandatos reitoriais são, na verdade, espaços de tempo interdependentes. Cada um complementa e continua as etapas antecedentes. E ninguém, por mais convicto que esteja de seus acertos, haverá de abrir mão da experiência por outros vivida, em situações e contextos diversos ou assemelhados.
Eu disse, de saÃda, que sou antes, antes de tudo, professor. Peço que me tomem por irmão todos os que, nesta Casa, se dedicam ao ensino, e, no ensino, são a medida melhor e mais exata de sua qualidade. Eu quero – sempre haverei de querer – uma Universidade com alma. E a alma da Universidade são os seus professores.
Aos servidores do nosso quadro técnico-administrativos, levo a certeza de que o seu trabalho será, em qualquer ocasião, objeto de real e sincero reconhecimento. Os alicerces se escondem, mas de sua firmeza e profundidade é que depende a elevação dos grandes edifÃcios.
A quantos se inscrevem como estudantes da Uema, em qualquer das múltiplas modalidades que lhes oferecemos, quero repetir o que é evidente: que a Universidade existe só por sua causa, e a Universidade será o que forem os seus alunos, seu entusiasmo, seu idealismo, a espalhafatosa galhardia de seus sonhos.
Ninguém há de ignorar a complexidade da Uema, como instituição universitária e órgão do Governo do Maranhão. Ninguém desconhece a multiplicidade de problemas em que se realiza o seu calendário. E eu nem preciso elencar os desafios que nos esperam e que farão a nossa massa de trabalho de logo mais. Graças a Deus: teremos muito o que fazer.
Distintas autoridades,
Senhoras e Senhores Membros da Comunidade Acadêmica:
Não posso esconder que aqui me faço presente por inteiro, eu e minhas circunstâncias:
Fecho os olhos, para expandir a visão de minh’alma e contemplar com saudade a figura de meu pai, Manoel Quadros de Oliveira, servidor da Causa Pública que inaugurou os tempos do Maranhão Novo como prefeito de Bacabal. Maranhão Novo, por princÃpios de nova polÃtica, por administração renovada e por imperativo ético, não por inculcação de agência publicitária.
Minha mãe, Maria de Lourdes, veio alegrar-se com seu filho nesta noite em que ele é ungido para o alto sacerdócio acadêmico. Comigo se encontram meus cinco irmãos, sobrinhos, tios e primos, que lhes agradecem o alto prestÃgio que, para toda a nossa FamÃlia, representa seu gesto de confiança, chancelado pelo Conselho Universitário e pelo ato homologador do Senhor Governador do Estado.
Este reitorado foi um dos muitos estÃmulos que, em visão de sonho, meu tio Monsenhor Clodomir Brandt profetizou para o sobrinho em quem tanto apostava. Eu devo por demais à quele grande educador maranhense, que foi pároco em Arari por meio século, e cujo vulto perpassa sobre meus ombros e se senta a meu lado nesta hora, dando-me exemplo e força para a grande tarefa que me aguarda.
Jubilosos estão também Aidê e nossos filhos Pedro e Marcus, que nem imaginam o quanto, a partir de hoje, lhes será subtraÃdo do tempo e da atenção que lhes devo, e que deverei repartir com a multidão que é hoje os quase 70 mil escolares da Uema.
Por último, mas não de menor importância, saúdo e homenageio os valorosos companheiros e companheiras do Rotary International que, em peso, se fizeram presentes a esta celebração. Com eles divido e faço aumentar minha alegria nesta noite inesquecÃvel. Cada um deles confere brilho especial a esta investidura.
AnÃsio Teixeira, o grande Educador dos brasileiros, deixou escrito: “A universidade não está cumprindo sua missão enquanto seus frutos não se distribuÃrem por todos aqueles que ela visa atingirâ€.
Por outro lado, uma universidade não depende apenas daqueles a quem os estatutos conferem responsabilidades formais de dirigentes, por mais dedicados que sejam. Uma universidade se faz pela luz de suas inteligências. Nosso caminho, longo, será luminoso, pela esperança que me anima, de poder captar o brilho das inteligências no circuito de nossa vida universitária e elevá-lo até à altura dos telhados, para que ilumine a todos.
Que Deus me dê forças para que assim seja. Que todos me dêem as mãos para que assim se faça.
Muito obrigado.
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